sexta-feira, 27 de abril de 2007

O tempo

Temos momentos em que desejamos que o tempo não passe. Outras esperamos que passe rapidamente, tão rápido que não se sinta. Caimos na estratégia ardilosa da mente de controlar algo que, afinal de contas, não existe. O tempo como o interpretamos não existe. Existe apenas o sentir diferente, consoante as sensações de dor ou de prazer.

Evitamos a dor e veneramos o prazer. Transformamo-nos em escravos do hedonismo e agoirentos do sofrimento. Conhecemos e aceitamos que existe a noite e o dia, o quente e o frio, o doce e o salgado, o seco e o molhado, o dentro e o fora, por cima e por baixo, mas ainda não conseguimos suportar o antagonismo da alegria e do sofrimento.

O tempo é um grande mestre, que mostra que nada é permanente. O tempo cura as feridas e traz novos presentes, que de novo incluem dor e prazer. O tempo também nos ensina que para viver em harmonia há que experimentar ambos, dando-lhe a importância que têm: nem o prazer é assim tão fantástico, nem o sofrimento tão mau. Precisamos de ambos para viver e crescer espiritualmente.

Levo o amor aonde vou. Transporto-o em cada olhar, transporto-o em cada toque, a cada irmão e irmã. O tempo sussurrou-me ao ouvido que carregaria de volta mais amor, mais compaixão, perdão e reconciliação!

Confio em ti, ó tempo, ó mestre, ó curador.

Permite-me que não me limite a confiar. Permite-me que te recorde da tua promessa, multiplicando ainda com mais sorrisos e suaves toques de amor fraterno.

Espero-te, contudo, naquela esquina onde sussurraste com o vento: “Tudo é possível, basta AMAR, basta dar-se com a generosidade do vento que transporta cada grão ao lugar onde renascerá aquele fruto que um dia também foi semente.

SEMENTE – FRUTO – SEMENTE

Que importa o tempo que levou o processo?! O tempo não conhece o «muito» ou «pouco». Simplesmente é.

Amiga/o, simplesmente SÊ. Dá o melhor de ti. Quando estiveres na madurez da tua existência e quase a ser semente recordarás a beleza do processo. Recordarás que o processo é mais importante que o fruto em si.

SIMPLESMENTE SÊ!!!!

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A saudade

Não sinto saudade dos que amo
Porque os tenho presente todos os dias na minha pele, no meu coração, na minha mente, na minha alma

Não tenho saudades das paisagens que conheci
Porque as trago presentes na retina

Não tenho saudades dos objectos que deixei para trás
Porque não preciso deles

Sinto apenas saudade dos sonhos por realizar...

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Somos loucos

Somos loucos.

Nós,
os que sonhamos,
os que desejamos com grande paixão um mundo melhor,
os que perseguimos ideais humanitários,
os que colocamos em risco a nossa saúde em locais inóspitos e insalubres,
os que deixamos as nossas famílias por longos períodos,
os que trocamos uma cama lavada e a cheirar a fresco por um saco-cama pestilento,
os que choramos baixinho quando vemos a fome e a doença perante a momentânea e aparente impotência...

Nós,
os que sonhamos,
os que abraçamos as utopias,
os que arregaçamos as mangas e sujamos os pés na lama,
os que saltamos de alegria com o sorriso de uma criança,

Somos loucos
Somos felizes
Somos paz, somos luz, somos amor!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Caminho bifurcado

Num dos momentos de meditação recebi a seguinte mensagem: “Para encontrar o caminho é preciso estar perdido”.

Preocupamo-nos muito quando nos sentimos perdidos, quando a vida nos brinda com um caminho bifurcado. Temos dificuldade em tomar decisões, em tomar opções. Vamos acumulando tensões, vamos perdendo a lucidez e instala-se o medo que nos paralisa. Deixamos de viver o presente e ocupamos cada minuto para desvendar todos os obstáculos que eventualmente nos podem aparecer no caminho.Em vez de viver e saborear cada momento que o presente nos proporciona, accionamos o pensamento pessimista. Esta onda energética com certeza trará todos os pensamentos que mentalizamos. E tudo o que acontece de negativo nós interpretamos como uma verificação dos nossos maus presságios. Pensamos: “Eu tinha razão! Aconteceu como eu previa”.

Se, ao contrário, desenvolvermos pensamentos positivos e visualizarmos o que desejamos, estamos a canalizar as energias para que isso se dê, tenha lugar. A vida traz-nos vários presentes que muitas vezes não sabemos apreciar. Porque tememos sempre as coisas más e temos a nossa mente programada para evitar o sofrimento, vamos perdendo a capacidade de identificar as coisas boas. E quando elas surjem duvidamos com grande ênfase da sua veracidade e comentamos: “Parece demasiado bom para ser verdade”. As experiências dolorosas do passado fazem-nos hipotecar o nosso futuro, pelas ondas de medo que geram e nos paralisam, quando, em vez disso, poderíamos abraçar todas as maravilhas que o presente nos oferece. Em cada minuto recebemos infinitas bençãos que já não nos damos conta. Cada por-do-sol, cada gota de água que escorre pelo nosso corpo quando tomamos banho ou deixamos que a chuva nos toque, cada rajada de vento que nos acaricia o rosto, cada refeição que tomamos, cada abraço e sorriso que recebemos,...

Cada amanhecer nos recorda que o dia de hoje será diferente de todos aqueles que vivemos até ao momento. Esta habilidade de nos maravilharmos com a magia da vida é um dos segredos na arte de saber viver.

Nos dias em que parece impossível conseguir descobrir a beleza que nos rodeia, acontece sempre algo que nos conforta a alma. Basta estar atento e agradecido, por mais pequeno que seja o reconforto...

Nas coisas simples alcançamos isso: como uma bela borboleta que passa diante dos nossos olhos, um email ou um telefonema de um amigo que não sabemos notícias há muito tempo, um aguaceiro forte - mesmo quando nos apanha a meio do caminho...

sexta-feira, 23 de março de 2007

Força telúrica

Nas viagens regulares que faço às áreas mais remotas do distrito de Lautem, em Timor-Leste (onde me encontro a trabalhar como voluntária das Nações Unidas) disfruto de toda a beleza da paisagem que o percurso pela montanha nos oferece. Faço e ofereço aconselhamento na educação dos votantes. Apesar do objectivo principal ser a condução de sessões de educação cívica em cada suco ou aldeia, abraço cada ida e regresso como uma oferenda única e irrepetível. Porque cada viagem que se faz é diferente, mesmo que se passe pelo mesmo caminho dezenas de vezes seguidas. Cada dia é diferente do outro, pois diversas variáveis se conjugam para que isso se dê. A luminosidade de cada dia é distinta (e até no mesmo dia); as flores e restante vegetação vão-se alterando com as mudanças climáticas; os animais que povoam cada zona vão-se adaptando ou saindo; o humor e energia das pessoas (locais e internacionais) que vão na viatura também são únicos em cada dia.


Passamos a maior tempo nas viagens de ida e regresso. Aos sítios mais isolados podemos demorar mais de três horas para lá chegar. Partilhamos mais de seis horas, que aproveitamos para que sejam de alegria e comunhão. Nesse período dividimos a comida e bebida que trazemos, ouvimos música e dançamos ao seu ritmo (que se torna fácil com todos os buracos que encontramos no caminho - mesmo os mais tímidos são obrigados a mexer o esqueleto); partilhamos alegrias e preocupações dos locais nesta fase de eleições...

Em todas as viagens algo de mágico sucede. É uma experiência telúrica. Uma energia entra inexplicavelmente em cada poro da pele e percorre cada interstício do corpo. Chego fisicamente moída, mas com as baterias carregadas! Beijo e abraço os colaboradores num gesto de amor fraternal, sem preocupar-me com possíveis resquícias de pudor escondidas algures...

A vida é uma viagem não muito diferente das que faço quando vou à montanha nesta actual missão. Mais do que paragens e caminhos acidentados, ela tem a magia da força telúrica dos seres que nos acompanham.

quinta-feira, 15 de março de 2007

A solidão


Muitos de nós vemos com medo o facto de se estar só. Só em casa, só a tomar uma refeição, só em férias, só sem um/a companheira/o...

A solidão é como uma bola de algodão doce. Se formos prová-la é doce e de seguida desaparece na boca. Pega-se aos dedos e temos dificuldade em fazer desaparecer essa pegosidade.

É, antes de tudo, artificial porque nós não estamos sós. Contamos com a nossa companhia, a companhia da nossa pessoa. Sem nos darmos conta passamos a vida a fugir da nossa companhia. Fazemos de tudo para não a enfrentarmos: passamos o tempo em frente ao televisor, ouvimos música (muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo), sentamo-nos em frente ao computador horas a fio, temos conversas sobre temas sem qualquer relevância (como a vida alheia ou outras superficialidades), vamos ao shopping, trabalhamos mais do que deveríamos,..., etc, etc, etc. Enfim, inventamos infinitas formas de evitarmos estar em silêncio. Quando não temos nada para fazer entramos em pânico e sentimos uma tristeza enorme. A solução imediata que encontramos é ligar de novo a TV, o rádio ou telefonar a um amigo para sair. Ouço amiúde o comentário de gente a dizer que detesta ficar só, que teme a solidão. Como podemos desejar que os outros apreciem a nossa companhia se nós somos os primeiros a temê-la?!

A solidão pega-se aos dedos e fica pegajosa (como o algodão doce), porque ao evitarmos estar sós vamos de encontro a outros seres humanos que se encontram exactamente nessa onda energética. E assim vamos colando-nos uns aos outros para não nos sentirmos sós e não porque intrinsecamente queremos dar e receber, de forma a crescermos, sermos melhores para connosco e com os outros.

E porque é a solidão doce e desaparece de seguida na boca? Porque quem experimenta o prazer da sua companhia percebe que não está só. Por isso a sensação de solidão desaparece. Percebemos a beleza de estar só, de olharmos para dentro de nós, de amarmos quem somos. Para isso, em primeiro lugar temos de aprender a perdoar os erros que cometemos e de seguida lançar as bases para que não voltemos a cometer as mesmas falhas. Torna-se fácil se, por exemplo, conseguirmos rir das nossas falhas. Em cada uma delas há um humor escondido. Soltar gargalhadas dessas falhas ajudará a tornar o erro em algo menos pesado e sério.

Sabendo perdoar os erros e manter a mente atenta para não os voltar a cometer estamos preparados para começar a subir a escada da auto-superação. Estando a nossa mente direccionada no constante crescimento e desenvolvimento haverá lugar para nos sentirmos sós?

Existem infinitas formas de nos divertirmos com a nossa companhia. Partilho contigo uma delas. Experimenta-a!!!!!!!!!!

Põe-te a escutar a canção/música preferida. Fecha os olhos e solta todos os músculos do teu corpo. Vai seguindo o ritmo da música e deixa que, sem qualquer esforço, o teu corpo tome o comando. Deixa-te levar pela música, deixa o teu corpo fluir com a melodia. Lembra-te que que ninguém te está a ver. Sente a música vibrar nos teus pés. Sente a tua pele vibrar igualmente, sente como se vai refrescando pelo suor que vai saindo pelos seus poros. Liberta-te completamente e fica ai a usufruir dessas sensações o tempo que te apetecer.

Existem muitas outras formas de usufruir da beleza de estar só. Cada um encontra aquelas que mais lhe agrada. É claro que existirão sempre momentos de solidão. Fazem parte da condição humana. São momentos muito importantes do nosso crescimento pessoal. Se sentires uma dor muito forte que parece não querer desaparecer, consumindo o ar que respiras fala com os teus anjos. Dirige-lhes a palavra. Pede-lhes um abraço.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

A amizade


Ao longo de trinta anos pessoas foram passando no mesmo caminho que eu. Algumas delas deixaram marcas fortes, não raras vezes desde o primeiro momento.

Com alguns de vocês partilhei apenas breves momentos, mas isso não significa que sejam menos valiosos. Carrego-vos no meu peito a todo o momento. De vez em quando viajo até junto de vós e partilho convosco momentos passados e novos.

Quando sentires uma sensação no teu coração – como uma picada forte no peito ao mesmo tempo que parece que dilata - sou eu que me aproximo de ti. Sente o ar morno que passa entre a tua orelha e pescoço enquanto sussuro ao ouvido o quão importante és. Estás a sentir agora? Sou mesmo eu!!!!!!

Não importa se não estou perto de ti fisicamente. Não importa se não me vês. Não importa se naqueles dias mais especiais os meus olhos não vão de encontro aos teus. Chama-me baixinho, desde dentro de ti, e em direcção a ti irei. Partilharei contigo cada sensação... alegrias e tristezas.

Não me esqueço de ti nunca, nem mesmo quando estou do outro lado do mundo, nem mesmo quando estou mais atarefada, nem mesmo quando Deus me coloca desafios elevados nas mãos como neste momento.

Vou-te contar...

Nestes dias fui visitar uma aldeia, não muito longe de onde vivo e trabalho. Tive a oportunidade de estar com a sua gente, entrar dentro das suas casas e conversar com os seus membros. Como deves imaginar, esta não foi a primeira visita que fiz à comunidade. Mas foi diferente de todas as outras. Nesse dia os meus olhos estavam mais atentos e o coração mais sensível. Era um dia chuvoso. Quando as nuvens descansavam de derramar o seu maná, o sol brilhava revelando o reluzir das gotas de água na vegetação e a cor de prata nos charcos de água.

Ao entrar nas casas retirava os chinelos, para não sujar o chão com as camadas de lama que se iam acumulando em cada passada. Cumprimentava os seus elementos e fixava as crianças que timida e suavemente chegavam perto de mim. Conversava um pouco, escutava as suas almas, respirava o seu ar...

Assim fiquei a saber que estão a passar fome. Não há arroz nem milho à venda. Nesse dia tinham ido ao mercado e estavam a contar, pelo menos, com alguns punhados de milho (que actualmente pela sua escassez estão a preços proibitivos). Nem isso encontraram. Resignados, regressaram a casa de lágrimas nos olhos.

Não consegui conter a chuva que também queria sair de dentro de mim. Sem que notassem varri com os dedos as gotas salgadas do canto dos olhos. Antes de vir embora apresentaram-me a um Sr. de 95 anos que passa o dia inteiro num quarto daquela humilde casa. O seu rosto resplandecia ternura. O majestoso esforço fisico que teve de empreender para se sentar na cama e me receber, a sua expressão facial, a sua fragilidade fisica e as palavras amáveis que me endereçou num perfeito português emocionaram-me de tal forma que as palavras de retorno tiveram dificuldade em sair, pelo nódulo que se formara na minha garganta.

Principalmente nestas ocasiões lembro-me de ti. Porque as recordações da nossa bela amizade me dão mais força para seguir no caminho, porque a recordação do teu sorriso e olhar alimentam a minha crença num mundo melhor!!!!!!!!!!!!!!!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

A felicidade


Depois das refeições fico a conversar com algumas das oito Irmãs Canossianas de Lospalos. As mais velhas, que sabem falar português, gostam de reciclar as suas competências linguísticas e é com prazer que partilhamos ideias e pensamentos. Dizem-me a todo o momento (principalmente quando começamos as refeições): «Nós simples, muito simples». As conversas são igualmente de grande simplicidade, uma simplicidade luminosa.

Neste momento vem-me à memória uma conversa recente com a irmã Felicidade. Ao perguntar-lhe a sua idade respondeu-me: «Tenho 72 anos. Sou muito feliz. Estou muito feliz com a minha idade e comigo». Esta afirmação tão peremptória e convincente contrasta com o seu aspecto franzino e débil. Os seus modos são gentis (como a maior parte dos seus conterrâneos timorenses), mas o seu andar não esconde a grande energia, mesmo sendo septuagenária.

Os caminhos de uma das conversas levaram a Irmã de novo até Itália, onde em tempos tivera passado uma temporada, parte do seu percurso religioso. Decorrente dessa estadia, contava-me a primeira vez que viu neve: «Estava a varrer a varanda quando vi cair algodão, mas quando tentei agarrar os flocos, não parecia algodão. Tinha uma textura diferente. Então fui para a rua e fiz uma bola de neve. Quando estava na hora de ir rezar coloquei a bola dentro do bolso e fui para a Igreja. Passado algum tempo vi que no chão começou a cair água. Não sabia de onde vinha, até que a Madre Superiora me perguntou o que tinha no bolso».

Contava-me a história e a cada palavra tinha mais vontade de rir. Dava gargalhadas entre cada frase. Recordava-se com alegria desses momentos, da descoberta dos flocos de neve e do efeito do gelo na presença do calor.

Todos os dias há histórias novas que saltam para a mesa de refeição. As Irmãs mantêm os seus sorrisos abertos e espontâneos, mesmo que estejam numa dia mais atarefado ou doentes. Observo-as e escuto-as - ora em Português, ora em Tétum – e penso: «Isto é a felicidade». Elas vivem em harmonia na sua comunidade, encontraram a sua missão e são felizes nela. Cada dia é uma oferenda que aceitam com agrado e generosidade. E transportam esse espírito em todas as suas acções, como no momento em que eu estava em meditação e a Irmã Felicidade espontaneamente me dá um beijo expressivo no rosto ao mesmo tempo que me abraça. A surpresa pelo gesto fez-me transbordar de emoção, não conseguindo conter as lágrimas enquanto de olhos fechados sentia os seus passos em direcção à porta.

Acredita, a FELICIDADE está na SIMPLICIDADE.

sábado, 27 de janeiro de 2007

O silêncio


Depois de dois meses a viver em Dili, regressei a Lospalos de “malas e bagagens”. Procurei o acolhimento das Irmãs Canossianas, que já conhecia de 2004. Existe uma grande estima e consideração recíprocas. Partilho com as Irmãs todas as refeições. Às sextas-feiras, na hora de jantar, o silêncio tomar lugar.

Sendo, por natureza, uma pessoa comunicativa os momentos de silêncio são como um elixir. Tomo-os como uma oportunidade para moderar os meus ímpetos comunicacionais. Não devo apenas às Madres Canossianas os rejuvenescedores silêncios. Devo igualmente às circunstâncias da missão que me obrigam a momentos longos de descanso (pela dureza do clima e do trabalho). Devo ainda a uma pessoa amiga que brindou a nossa amizade com longos silêncios.

Os silêncios são de diferentes naturezas: momentos de partilha, de descanso, de oração, proporcionando grande crescimento interior. Somos conduzidos a penetrar no nosso “Eu” interior, conviver com ele, apreciá-lo, aceitá-lo e a amadurecer, transformando as nossas debilidades em forças. Proporcionam uma maior clareza, serenidade, mesmo em momentos difíceis.

A todos os que me conduzem e disciplinam nestes belíssimos momentos de recolhimento, aqui vai o meu agradecimento.

domingo, 7 de janeiro de 2007

De partida para o distrito


Dentro de poucos dias irei finalmente “assentar arraiais” no distrito de Lautem. Passei quase dois meses em Dili, nos preparativos para a missão de acompanhamento do processo Eleitoral em Timor.

Decorrido este tempo já posso fazer algumas reflexões. A primeira é que cada missão tem um colorido diferente. As lentes com que vejo esta são certamente diferentes. Esperava estar todo o tempo no Distrito, porque, como sempre afirmo, gosto mais do ambiente rural para trabalhar e viver. Estando “forçada” a viver em Dili durante todos estes dias fiquei a sentir de uma forma diferente o seu ambiente e as pessoas que dele fazem parte. Percebi a sua beleza, apesar de continuar a apreciar mais o meio rural.

A partir desta semana permanecerei em Lautem, trabalhando afincada e directamente com a população.

Visto de novo a Lipa e calço os chinelos. Rasgo o sorriso e caminho até às crianças que se encontram a brincar à volta do nosso jipe. Brinco um pouco com elas e apresento-me ao chefe de aldeia, chefes de suco e os homens sábios (Katuas), enquanto observo de soslaio as mulheres da comunidade que timidamente observam as minhas vestes e sorriem entre elas, algumas com pequenas gargalhadas. Depois de cumprir com os cumprimentos protocolares dirijo-me até elas, conversando um pouco, no meu tétum pueril. Demonstram o seu agrado por verem que visto as suas roupas e fazem comentários entre si, num outro dialecto local que desconheço. Fico para almoçar, aceitando o seu generoso convite.

Entrego-me à missão e a todos os que posso alcançar. Dou o melhor de mim, esperando e acreditando que terá os melhores resultados. Não sei por quanto tempo ficarei, não sei exactamente as repercussões desta entrega. Mas neste momento isso não é o mais importante. E o que é o mais importante? Dar generosamente… parece que não sou a única a acreditar que quanto mais dermos mais receberemos!!!!!!!!!

A alegria

Para nós, seres humanos a forma mais fácil de percebermos o valor das coisas é pela perda. A maior parte das vezes só percebemos a importância de algo quando a perdemos.

A alegria é provavelmente a coisa mais fácil de valorizar. Todos nós sabemos o que significa a alegria, porque já sentimos a tristeza. Acreditamos que é algo normal, que faz parte da nossa condição de seres imperfeitos…

A minha vida transformou-se completamente quando percebi que a alegria vem de dentro de nós, independentemente do que se possa passar à nossa volta. O nosso estado de espírito depende do nosso bem-estar global. Primeiro temos de cuidar de nós, da nossa saúde física e espiritual. Em primeiro lugar temos de nos amar incondicionalmente. Só assim poderemos amar e ser amados.

Apesar de todos os escolhos que vou encontrando no caminho limpo a alma de todos os pessimismos que me vão querendo invadir. E quando a tristeza quer lembrar-me que existe a alegria, busco a luz e com fé vou de encontro ao Pai. Fico lá por um pouquinho, recebendo a sua luz e amor. Ele fala comigo e os anjos segredam-me ao ouvido os passos a dar.

Quando te sentires triste, sente os Seus braços carinhosos e perenes e fica atenta/o às palavras dos teus anjos, que te guardam a todo o momento.

sábado, 30 de dezembro de 2006

O sorriso é amor

Na primeira missão em Timor, a senhora timorense que tratava das lides da casa, depois dos primeiros dias de convivência decidiu fazer uma pergunta que me pareceu trazê-la na mente há alguns dias. “Menina Sónia, porque está sempre a sorrir?”, perguntou a D. Silvina no seu português um pouco perdido no tempo pelos vários anos de proibição da utilização da língua portuguesa durante o tempo de ocupação Indonésia. Não esperava aquela pergunta, ao que espontaneamente lhe respondi: “Pergunte à minha mãe, foi ela que me fez assim!”. Deu uma grande gargalhada e continuou a reagir ao meu sorriso quase permanente com uma luz especial nos olhos.

O sorriso faz parte de mim, como a cor da minha pele, do meu cabelo ou dos olhos. Ao longo dos anos fui mudando de aspecto pela forma de vestir, maquilhar ou o corte de cabelo. As pessoas deixavam de me conhecer por essas alterações estéticas, mas reconheciam-me imediatamente assim que nos cumprimentávamos e naturalmente o sorriso saia de encontro aos seus olhos.

No contacto directo com as pessoas simples o sorriso tem uma potência ainda maior. Elas sabem reconhecer os sorrisos sinceros e descomprometidos e, na maioria das vezes, retribuem-nos imediatamente com outro sorriso ainda mais rasgado. O sorriso é o primeiro momento de ligação com os outros, é a chave para entrarmos no coração dos que nos rodeiam.

Hoje, uma colega de trabalho que me conhece há apenas um mês e meio reclamou que hoje ainda não me tinha visto sorrir (e tinha acabado de me encontrar). Reagi ao seu comentário sorrindo, ao que ela contestou: “Agora está melhor!”. O amor que temos a cada ser humano com quem nos cruzamos canaliza-se também através dos nossos sorrisos espontâneos. E quando não o fazemos, os que nos rodeiam relembrar-nos-ão que lhes está a fazer falta a sua dose do dia.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

A época natalícia em Timor


Com algum lamento vos digo que não passei o natal tão junto dos timorenses como desejaria. Entre viagens da capital à ponta leste do país (e vice-versa), falo do seu Natal como uma estrangeira atenta, mas distante do seu quotidiano.

Posso partilhar convosco o que aqui pude observar, mas que é certamente uma descrição muito à quem do que realmente os timorenses vivem.

Uma das manifestações mais evidentes são os presépios montados nas bermas das estradas junto das populações e/ou (no caso de Dili) em zonas em que há circulação de gente e carros (como rotundas). Os jovens e crianças tomam a seu cargo a tarefa da sua montagem. Orgulham-se da sua “obra de arte” e demonstram-no com a sua presença no local durante grande parte do dia. Existe um espírito competitivo saudável que se traduz na panóplia variada de materiais e mecanismos que adicionam à sua montagem, seja com estrelas penduradas em locais altos, ou com iluminações ou por exemplo com música incluída, onde depois se divertem a dançar.

Em Dili existe outro passatempo adicional que são os engenhos explosivos que as crianças fazem explodir desde sua casa e ruas da cidade. Trata-se de uma prática perigosa que pode causar acidentes graves.

Comparar o natal lusitano com o timorense é algo difícil. Primeiro porque o clima é tropical, para quem está habituado à época natalícia numa parte do globo com quatro estações, em que Dezembro é pleno Inverno. Os pequenos fogos de artifício dão-lhe igualmente um ar de ano novo, Carnaval ou S. João. A maior diferença será, contudo, estarmos longe dos nossos familiares e amigos. Por isso, a todos vós vos envio um xi-coração bem forte e quentinho.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

O reencontro

Esta segunda missão em Timor fez-me regressar ao ponto de partida: ao momento em que há dois anos atrás - neste mesmo país – compreendi que a acção humanitária é a minha vocação.

O regresso trouxe-me ao reencontro…

Quando estamos no caminho da luz a alma desperta, a paz preenche-nos e estamos de bem com a vida. Abre-se um feixe de lucidez e harmonia interior que nada perturba: nem o calor extremo e humidade do ar, nem as pessoas inquietas com quem cruzamos.

A quem deseja ser feliz ao desvendar um sorriso nos outros,
A quem deseja seguir o caminho da ajuda ao próximo,
A quem deseja partir nessa viagem,
Segredo ao ouvido: vem, junta-te a mim!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Na tua mala de viagem coloca:
Duas mudas roupa e um par de calçado,
Uma mão cheia de humildade
Outra cheia de amor e alegria
Um livro em branco (onde na primeira página colocas todos os teus sonhos e nas seguintes vais rascunhando os passos para lá chegares)
E um saco repleto de fé

Mas… antes de partires não te esqueças de:
Deitar fora tudo o que é supérfluo, seja de natureza material ou imaterial
Perdoar os teus erros e os dos que te estão próximos

Não te posso dizer que o caminho é fácil, não te posso enganar…
Mas posso afirmar que todas as dificuldades são apenas pedras no caminho que, à medida que vais afastando, cresce em ti uma força cada vez maior que te impele a seguir por caminhos ainda mais pedregosos. Irás reparar que quando olhares para trás, as pedras desse caminho transformar-se-ão em bonitas flores. Porque cada dificuldade que (ultra)passares tornar-te-á mais forte e capaz de enfrentar novos desafios. Porque serás capaz de transformar a dor em harmonia e amor à tua volta e em todos os que tocares.

E quantas mais flores deixares no caminho, mais felicidade encontrarás! Olha para mim. Mais feliz não poderia estar :)

domingo, 26 de novembro de 2006

O regresso

Depois de dois anos de ausência vi-me conduzida de novo a Timor, em Novembro de 2006. A viagem tomou a forma de peregrinação, como se fosse uma metáfora para a grande jornada que me espera daqui em diante… Depois de mais ou menos três dias de viagem regressei finalmente à terra em forma de crocodilo, que me recebeu de braços e sorrisos abertos como outrora. Os tempos agora são outros. Vive-se um clima de alerta, principalmente na cidade de Dili, onde confrontos amiúde têm lugar. Vive-se, contudo, durante o dia um quotidiano normal. As lojas estão em funcionamento, o frenesim das ruas amontoadas de carros, motorizadas, gente, vendedores, … Observar as pessoas é um dos meus maiores prazeres. Aprecio cada gesto e cada olhar. Os timorenses têm um sorriso espontâneo, aberto e carinhoso. É fácil apanhá-los distraídos enquanto desempenham alguma tarefa, momento em que emerge um semblante triste, melancólico… O sorriso e riso dos timorenses dizem muito a seu respeito. É uma forma de comunicação. O riso com pequenas gargalhadas tem diferentes significados, dependendo da forma como é manifestado pelo interlocutor.

Cheguei com outra missão em mãos. Dar apoio directo às populações, mas durante o período de eleições. Aguardo a decisão da colocação num dos distritos do país na área rural. Até lá vou frequentando as aulas de tétum, de forma a melhorar as competências linguísticas, que são fundamentais no contacto directo com os autóctones.

As sensações são variadas neste reencontro com o povo das duas caras (ora crocodilo, ora rapaz – ver a “Estória do Crocodilo”). O corpo precisa habituar-se às elevadas temperaturas e humidade do ar. A respiração torna-se mais difícil, as roupas colam-se ao corpo, as pernas parecem pesar mais, o pó circula no ar, os insectos importunam os movimentos sempre que tentam provar o sabor da pele ou sangue, o sol queima a delicada pele dos caucasianos.

Se por um lado o corpo vê-se sujeito a um novo ambiente que lhe parece hostil, por outro o espírito sente igualmente os novos desafios. A mudança de registo cultural é essencial, i.e., não olhar com os mesmos olhos as formas de “pensar, sentir e agir” dos timorenses. É necessário colocar novas lentes. As sensações mais difíceis de experimentar não são contudo as físicas. Ver as condições que a maior parte vive é certamente mais difícil…